segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

"Cala-te e está quieto"

 «Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: "Cala-te e está quieto"»


Estás em alto mar e levanta-se uma tempestade; só te resta gritar: «Salva-me, Senhor!» (Mt 14,30). E Ele, o que anda sobre as ondas sem temor, o que te tira o medo, aquele que é a fonte da tua segurança e te fala ao coração, estende-te a mão e diz-te: «Pensa no que Eu suportei. Sofres por causa de um mau irmão, de um inimigo exterior? Não os tive Eu também: os que à minha volta arreganhavam dos dentes e, mais perto de Mim, o discípulo que Me traiu?».

É verdade, a tempestade causa estragos. Mas Cristo salva-nos «do vendaval e da tempestade» (Sl 55,9). A tua barca está agitada? Talvez seja porque Cristo dorme em ti. As ondas agitavam o barco onde os discípulos navegavam naquele mar furioso, mas Cristo dormia. Até que eles perceberam que levavam consigo o Senhor e Criador dos ventos e, aproximando-se de Cristo, despertaram-no; Ele mandou calar os ventos e «fez-se uma grande bonança».

É com razão que o teu coração se perturba quando esqueces em quem crês; o teu sofrimento torna-se insuportável quando tudo aquilo que Cristo sofreu por ti está longe do teu espírito. Se não pensas em Cristo, Ele dorme. Desperta Cristo, recorre à tua fé. Porque Cristo dorme em ti quando esqueces a sua Paixão; se a recordas, Cristo vela por ti. Quando tiveres meditado com todo o teu coração no que Cristo sofreu, suportarás com mais perseverança as tuas aflições. E talvez te sintas - e que alegria - ligeiramente semelhante ao teu Rei no sofrimento. Sim, quando estes pensamentos começarem a consolar-te e a dar-te alegria, saberás que foi Cristo que Se levantou e mandou calar os ventos; daí a calma que se faz em ti. «Apressar-me-ia a encontrar abrigo contra o vendaval e a tempestade» (Sl 55,9). 

Agostinho, Bispo de Hipona (354-430), norte de África, doutor da Igreja. Discursos sobre os salmos, PS 54,10; CCL 39, 664


quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado

Hoje é sábado, um sábado que os judeus respeitam com descanso exterior, com uma doce e luxuriosa ociosidade, porque se dedicam a ninharias, e gastam este sábado que o Senhor prescreveu dedicados a ocupações que Ele proibiu. Se para nós o sábado é abstenção de obras más, para eles é abstenção de obras boas. Porque é melhor lavrar a terra que dançar. Eles abstêm-se de obras boas, mas não de obras pueris. Deus prescreveu-nos, pois, um repouso - mas que repouso?

Em primeiro lugar, vê onde está esse repouso. Para muitos, o repouso está nos membros, enquanto a consciência se agita. Quem é mau não pode ter este sábado, porque a sua consciência não está em repouso, mas vive necessariamente na agitação. A boa consciência, pelo contrário, está sempre em paz, e esta paz é o sábado do coração. Ele repousa nas promessas do Senhor e, se sente algum cansaço nesta vida, eleva-se à esperança do futuro, e então todas as nuvens de tristeza se dissipam, como diz o apóstolo: alegra-se na esperança. Esta alegria serena na esperança é o nosso sábado.

É isto que o nosso salmo canta e preconiza, ensinando o cristão a permanecer no sábado do seu coração, isto é, na calma e tranquilidade, na serenidade de uma consciência tranquila. Por isso, fala-nos daquilo que é habitualmente uma fonte de perturbação para os homens, para nos ensinar a celebrar o sábado no coração.

Agostinho, de Hipona (354-430), bispo, Salmo 91,2

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

«Somos inúteis servos» Ambrósio (c. 340-397) - Sobre o Evangelho de Lucas 8, 31-32

Que ninguém se vanglorie do que faz, pois é de simples justiça que sirvamos o Senhor. [...] Enquanto vivermos, devemos trabalhar sempre para este Senhor. Reconhece, pois, que és um servo e estás obrigado a um grande número de serviços. Não te envaideças por seres chamado «filho de Deus» (1Jo 3,1): reconheçamos esta graça, mas não esqueçamos a nossa natureza. 

Não te gabes de teres servido bem, pois fizeste o que devias fazer: também o Sol desempenha o seu papel, a Lua obedece, os anjos cumprem os seus serviços. S. Paulo, «o instrumento escolhido pelo Senhor para os pagãos» (At 9,15), escreve: «Eu não mereço o nome de apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus» (1Cor 15,9). E, se mostra que não tem consciência de qualquer falta, acrescenta de seguida: «Mas nem por isso estou justificado» (1Cor 4,4). 

Não pretendamos, pois, ser louvados por nós próprios, nem antecipemos o juízo de Deus.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Caíram em boa terra e deram fruto

«Saiu o semeador a semear». De onde saiu Ele, Aquele que está presente em toda a parte, que enche todo o Universo? Como saiu? Não materialmente, mas por uma disposição da sua providência a nosso respeito: aproximou-Se de nós, revestindo-Se da nossa carne. Uma vez que não podíamos ir até Ele, porque os nossos pecados no-lo impediam, foi Ele que veio até nós. E porque foi que saiu? Para destruir a terra onde abundavam os espinhos? Para castigar os cultivadores? De modo nenhum. Ele veio cultivar essa terra, tratar dela e nela semear a palavra da santidade. Porque a semente de que fala é, na verdade, a sua doutrina; o campo é a alma do homem; o semeador é Ele próprio. [...]

Com razão criticaríamos um semeador que semeasse com tanta abundância. [...] Mas, quando se trata das coisas da alma, as pedras podem transformar-se em terra fértil, o caminho pode deixar de ser pisado pelos transeuntes e tornar-se campo fecundo, os espinhos podem ser arrancados, permitindo que os grãos cresçam tranquilamente. Se isso não fosse possível, Ele não teria lançado a semente. E, se a transformação não se realizou, não é por culpa do semeador, mas daqueles que não quiseram deixar-se transformar. O semeador fez o seu trabalho. Se a semente se perdeu, o autor de tão grande benefício não é responsável por isso.     

Nota bem que há várias maneiras de deixar perder a semente. [...] Uma coisa é deixar a semente da palavra de Deus secar sem tribulações e sem cuidados, outra é vê-la sucumbir sob o choque das tentações. [...] Para que tal não nos aconteça, gravemos a palavra na nossa memória, com ardor e seriedade. Assim, por muito que o diabo arranque à nossa volta, teremos força para evitar que ele arranque o que quer que seja dentro de nós. 

João Crisóstomo (c. 345-407). 

Presbítero de Antioquia, Bispo de Constantinopla. Homilias sobre Mateus, 44

sexta-feira, 19 de julho de 2024

A nova Lei

Considerai, meus irmãos, o grande mistério da harmonia e da diferença entre as duas leis e os dois povos. O povo antigo não celebrava a Páscoa em plena luz, mas na «sombra do que estava para vir» (cf Col 2,17); cinquenta dias depois da celebração da Páscoa […], Deus deu-lhe a Lei escrita por sua mão, no Monte Sinai. […] Deus desceu ao Monte Sinai no meio do fogo, enchendo de pavor o povo, que se mantinha a distância, e escreveu a Lei com o seu dedo, sobre a pedra e não no coração (Ex 31,18). 

Pelo contrário, quando o Espírito Santo desceu à terra, os discípulos estavam todos juntos no mesmo lugar e, em vez de os assustar do alto da montanha, Ele «encheu toda a casa onde se encontravam» (At 2,1ss). Houve realmente, vindo do alto do céu, um barulho parecido com o de um vento violento que se aproximava, mas esse ruído não assustou ninguém.

Ouvistes o ruído, vede também o fogo; porque, na montanha, também se evidenciaram estes dois fenómenos: o ruído e fogo. No Monte Sinai, o fogo estava cercado de fumo; aqui, pelo contrário, é de uma claridade luminosa: diz a Escritura que era «uma espécie de línguas de fogo que se iam dividindo». Este fogo causou medo? Nem um pouco: «e pousou uma sobre cada um deles». […] 

Escutai esta língua que fala, e compreendei que é o Espírito que escreve, não sobre a pedra, mas no coração. Portanto, a lei do Espírito de vida, escrita no coração e não na pedra, esta lei do Espírito de vida que está em Jesus Cristo, em quem a Páscoa foi celebrada em toda a verdade (1Cor 5, 7), «libertou-te da lei do pecado e da morte» (Rom 8,2).

 Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), Sermão 155, 6

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Ser humilde ou fazer milagres? Aquilo que os discípulos devem reter do Mestre

Um dia, os apóstolos queixaram-se a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus atalhou imediatamente: «Não o proibais [...]. Quem não é contra nós é por nós». Mas quando, no final dos tempos, estas pessoas disserem: «Senhor, senhor, não foi em teu nome que profetizámos? Não foi em teu nome que expulsámos demónios? Não foi em teu nome que fizemos numerosas ações poderosas?», Ele afirma que lhes responderá: «Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade!» (Mt 7,22-23), advertindo aqueles que Ele mesmo agraciou com a glória de sinais e prodígios de que não se exaltem nesta matéria: «Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão inscritos nos Céus» (Lc 10, 20)

Agora, o próprio autor de todos os sinais e prodígios chama os seus discípulos para aprenderem a sua doutrina; Ele vai esclarecer o que os seus verdadeiros seguidores, os escolhidos, devem aprender com Ele em particular: «Vinde», diz, «e aprendei de Mim» - não a expulsar os demónios pelo poder do céu, evidentemente, nem a curar os leprosos, a iluminar os cegos, a ressuscitar os mortos. É verdade que faço todos estes prodígios por intermédio de alguns dos meus servos; no entanto, a condição humana não pode entrar em sociedade com Deus para os louvores que Lhe são devidos; o ministro e o escravo não podem tomar parte naquela glória que pertence apenas à divindade; mas «aprendei de Mim», diz Ele, isto: «que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,28-29). Isto é o que todos podem aprender e praticar. Mas fazer sinais e prodígios nem sempre é necessário, nem benéfico para todos, nem é universalmente concedido.

 João Cassiano (c. 360-435). Sobre os carismas divinos, cap. VI, SC 54

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Aproximemo-nos dele com toda a simplicidade!

A simplicidade é um hábito da alma que exclui todo o artifício e a torna imune à malícia. A ausência de malícia é um estado alegre da alma, liberta de segundas intenções. A primeira prerrogativa da infância é a simplicidade sem artifícios; enquanto a conservou, Adão não viu a nudez da sua alma nem a indecência da sua carne.

A simplicidade que algumas pessoas possuem por natureza é bela e abençoada, mas é-o menos do que a simplicidade que, à força de trabalho e suor, foi enxertada num tronco mau. A primeira está ao abrigo de muitos artifícios e paixões, mas a segunda traz consigo uma profunda humildade e uma doçura extrema. A primeira não merece qualquer recompensa; a segunda merece uma recompensa infinita.

Todos nós, que queremos atrair o Senhor, aproximemo-nos dele como discípulos do mestre, com toda a simplicidade, sem hipocrisia, sem malícia, sem artifícios nem complicações. Visto que Ele próprio é totalmente simples, quer que as almas que Se aproximam dele sejam simples e inocentes. Porque nunca encontrareis a simplicidade separada da humildade.

João Clímaco (c. 575-c. 650). A Escada Santa, 24º degrau.

"Cala-te e está quieto"

 «Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: "Cala-te e está quieto"» Estás em alto mar e levanta-se uma tem...