Quem só pede ao Senhor a bem-aventurança e só por ela anseia (Sl 27:4) pede com segurança e certeza. Esta é a única verdadeira vida, a única vida bem-aventurada: contemplar eternamente a bondade do Senhor, na imortalidade e incorruptibilidade do corpo e da alma. Só por causa desta felicidade se buscam outros bens, só com esta finalidade se pede como convém. Quem alcançar a vida bem-aventurada terá tudo o que deseja e nada encontrará nela que não lhe convenha.
Ali está a fonte de vida (Sl 36:9), da qual sentimos sede na oração enquanto vivemos na esperança, sem ver ainda o que esperamos (Rm 8:25), mas refugiando-nos à sombra das asas daquele em cuja presença estão todos os nossos desejos (Sl 36:7), para saborearmos a abundância da sua casa e nos saciarmos na torrente das suas delícias; porque nele está a fonte da vida e é na sua luz que veremos a luz, quando, na sua bondade, nos saciar todos os desejos e já nada tivermos que pedir com gemidos, porque tudo possuiremos com alegria.
Mas, como essa vida é a paz que supera todo o entendimento (Fp 4:7), quando a pedimos na oração também não sabemos o que pedimos (Rm 8:26). Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância; douta, sem dúvida, porque instruída pelo Espírito Santo, que vem em auxílio da nossa fraqueza. De facto, diz o apóstolo [Paulo] que esperar o que não vemos é esperar com perseverança; e acrescenta: «o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que devemos pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis» (Rom 8:25-26).
Santo Agostinho (354-430). Bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja. Carta 130, sobre a oração, 14-15.