sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Passou a noite em oração a Deus

Quem só pede ao Senhor a bem-aventurança e só por ela anseia (Sl 27:4) pede com segurança e certeza. Esta é a única verdadeira vida, a única vida bem-aventurada: contemplar eternamente a bondade do Senhor, na imortalidade e incorruptibilidade do corpo e da alma. Só por causa desta felicidade se buscam outros bens, só com esta finalidade se pede como convém. Quem alcançar a vida bem-aventurada terá tudo o que deseja e nada encontrará nela que não lhe convenha.

Ali está a fonte de vida (Sl 36:9), da qual sentimos sede na oração enquanto vivemos na esperança, sem ver ainda o que esperamos (Rm 8:25), mas refugiando-nos à sombra das asas daquele em cuja presença estão todos os nossos desejos (Sl 36:7), para saborearmos a abundância da sua casa e nos saciarmos na torrente das suas delícias; porque nele está a fonte da vida e é na sua luz que veremos a luz, quando, na sua bondade, nos saciar todos os desejos e já nada tivermos que pedir com gemidos, porque tudo possuiremos com alegria.

Mas, como essa vida é a paz que supera todo o entendimento (Fp 4:7), quando a pedimos na oração também não sabemos o que pedimos (Rm 8:26). Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância; douta, sem dúvida, porque instruída pelo Espírito Santo, que vem em auxílio da nossa fraqueza. De facto, diz o apóstolo [Paulo] que esperar o que não vemos é esperar com perseverança; e acrescenta: «o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que devemos pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis» (Rom 8:25-26).


Santo Agostinho (354-430). Bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja. Carta 130, sobre a oração, 14-15.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Fiéis executores da sua vontade (Sl 103.20-21)

O que podemos dizer dos espíritos angélicos? A fé diz-nos que eles gozam da presença e da visão de Deus, que possuem uma felicidade sem fim, aqueles bens do Senhor que «nem olho viu, nem ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem» (1Cor 2.9). O que pode um simples mortal dizer sobre este assunto a outros mortais, ele que é incapaz de conceber tais coisas? 

Se é impossível falar da glória dos santos anjos em Deus, podemos pelo menos falar da graça e do amor que eles manifestam relativamente a nós, pois gozam, não apenas de uma dignidade incomparável, mas também de um espírito de serviço cheio de bondade. Não podendo compreender a sua glória, deixamo-nos prender tanto mais fortemente à misericórdia destes familiares de Deus, cidadãos do Céu e príncipes do Paraíso.

O apóstolo Paulo, que contemplou a corte celestial e conheceu os seus segredos (2Cor 12.2), atesta que todos os anjos são «espíritos ao serviço de Deus, enviados para exercer um ministério ao serviço daqueles que hão de herdar a salvação» (Hb 1.14). Não tomeis tal afirmação por inconcebível, pois o Criador, o próprio Rei dos anjos, «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos» (Mc 10.45). Que anjo desdenharia pois tal serviço, onde o precedeu Aquele que os anjos servem no Céu com pressa e alegria?

Bernardo de Claraval (1091-1153). Cisterciense. (mesmo autor do hino evangélico: "Fronte ensanguentada").

terça-feira, 27 de setembro de 2022

«O discípulo perfeito deverá ser como o seu mestre»

«O discípulo não é superior ao mestre». Porque julgas, se o Mestre não o faz? Ele não veio para condenar o mundo, mas para o salvar (cf Jo 12,47). Entendida neste sentido, a palavra de Cristo significa: «Se Eu não julgo, não julgues tu também, que és meu discípulo. Pode ser que tenhas culpas mais graves que aquele que estás a julgar, e como te sentirás envergonhado ao tomares consciência disso!» .

É isso que o Senhor nos ensina na parábola em que diz: «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão?», aconselhando-nos com argumentos irrefutáveis a não julgarmos os outros, mas perscrutarmos o nosso próprio coração. Seguidamente, incentiva-nos a libertarmo-nos dos desejos desregrados que nele estão instalados, pedindo a Deus essa graça. Efetivamente, é Ele que cura os que têm o coração abalado e nos liberta das nossas doenças espirituais. Porque, se os pecados que te esmagam são maiores e mais graves que os dos demais, porque os censuras sem te preocupares com os teus?

Todos quantos desejam viver devotamente, sobretudo aqueles que estão encarregados de formar os outros, tirarão certamente proveito deste preceito. Se forem virtuosos e sóbrios, vivendo de acordo com o Evangelho, acolherão com brandura os que ainda não agem do mesmo modo.


Cirilo de Alexandria (380-444). Bispo, doutor da Igreja. Comentário sobre o Evangelho de Lucas 6

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

«Vigiai porque não sabeis o dia nem a hora»

O Senhor disse-nos: «Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do Céu, nem o Filho», para impedir qualquer pergunta sobre o momento da sua segunda vinda: «Não vos compete saber os tempos nem os momentos» (Mt 24,36; cf At 1,7). Escondeu-no-lo para que estivéssemos vigilantes e para que cada um de nós pudesse pensar que esta vinda ocorrerá durante o seu tempo de vida. [...]

Vigiai, porque quando o corpo adormece é a natureza que nos domina; nessa altura, os nossos atos não são dirigidos pela nossa vontade, mas pela força da natureza. E, quando reina sobre a alma um pesado torpor de fraqueza e tristeza, é o inimigo que a domina. [...] Foi por isso que o Senhor falou da vigilância da alma e do corpo: para que o corpo não se afunde num sono pesado e a alma no entorpecimento. Como diz a Escritura: «Despertai, como é justo» (1Cor 15,34), «se pudesse chegar ao fim, ainda estaria convosco» (Sl 139,18) e «não desanimeis» (cf Ef 3,13). [...]

«Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes», diz o Senhor. Não é à virgindade que Ele chama sabedoria, uma vez que todas eram virgens, mas às boas obras. Mesmo que a tua castidade seja igual à santidade dos anjos, repara que a santidade dos anjos está isenta de inveja e de qualquer outro mal. Se não fores repreendido por impureza, cuida que também não o sejas por arrebatamento e por cólera. [...] «Estejam cingidos os vossos rins», para que a castidade não nos pese, «e acesas as vossas lâmpadas» (Lc 12,35), porque o mundo é como a noite: tem necessidade da luz dos justos. «Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5,16).

Efrém (c. 306-373), diácono da Síria, doutor da Igreja, Comentário do Evangelho, §18, 15ss.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

«Jovem, Eu te ordeno: levanta-te»

Ainda que os sintomas da morte tenham roubado por completo a esperança de vida, ainda que os corpos dos defuntos se encontrem já perto do sepulcro, à voz de Deus, os cadáveres que começavam a decompor-se recuperam a fala; o filho é devolvido a sua mãe, é chamado do túmulo, é arrancado ao túmulo. 

Que túmulo é o teu? São os teus maus hábitos, é a tua falta de fé. É deste túmulo que Cristo te salva, será deste túmulo que ressuscitarás, se ouvires a Palavra de Deus. Ainda que os teus pecados sejam tão graves que não possas lavar-te a ti próprio com as lágrimas do arrependimento, a igreja, chorará por ti, pois intercede por cada um dos seus filhos como mãe viúva com um filho único. Com efeito, a igreja tem compaixão, por uma espécie de sofrimento espiritual, dos seus filhos que vê dirigirem-se para a morte em consequência de vícios funestos. [...]

Que ela chore, pois, esta mãe piedosa; que a multidão a acompanhe; que não seja uma simples multidão, mas uma multidão considerável a ter compaixão desta mãe terna. Então, ressuscitarás do teu túmulo, serás dele libertado; os carregadores deter-se-ão, começarás a dizer palavras de vivo e todos ficarão estupefactos. E o exemplo de um só permitirá corrigir muitos, que louvarão a Deus por nos ter dado tais remédios para evitar a morte.

Ambrósio (c. 340-397). Bispo de Milão, doutor da Igreja. Tratado sobre o Evangelho de Lucas 7.11-17

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

A cruz, ponte lançada sobre o abismo da morte

Nosso Senhor foi tocado pela morte, mas, em contrapartida, abriu um caminho que esmaga a morte: submeteu-Se à morte e sofreu-a voluntariamente, para a destruir. Seguindo a ordem da morte, «saiu carregando a cruz» (Jo 19,17); mas, já na cruz, soltou um brado e tirou os mortos do inferno, embora a morte não quisesse consenti-lo. [...]

Ele é o glorioso «filho do carpinteiro» (Mt 13,55), que, no carro da cruz, desceu à voraz garganta da morada dos mortos e transferiu o género humano para a morada da vida (cf Col 1,13). E, se pela árvore do paraíso o género humano caíra na morada dos mortos, pela árvore da cruz passou para a morada da vida. Naquele madeiro, fora enxertado o azedume; neste, foi enxertada a doçura, para que nele reconheçamos o Senhor a quem nenhuma criatura pode opor-se.

Glória a Ti, que lançaste a cruz como ponte sobre a morte, para que os homens por ela passassem do país da morte para o país da vida. [...] Glória a Ti, que te revestiste do corpo do mortal Adão e dele fizeste a fonte da vida para todos os mortais. Sim, Tu estás vivo, porque os teus carrascos foram afinal semeadores: semearam a Tua vida nas profundezas da terra, como se faz com o trigo, para que cresça e com ele faça crescer muitos grãos (cf Jo 12,24).

Vinde, façamos deste amor um imenso incensório universal; prodigalizemos cânticos e orações Àquele que da cruz fez um turíbulo à Divindade e nos cumulou de riquezas com o seu sangue.

Efrém (c. 306-373), diácono da Síria, doutor da Igreja. Homilia sobre Nosso Senhor


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

As primeiras afirmações históricas dos evangelhos

Os apóstolos foram até ao fim do mundo proclamar a Boa Nova das graças que Deus nos concede e anunciar aos homens a paz do Céu (cf Lc 2,14), pois possuíam – todos igualmente e cada um em particular – a Boa Nova de Deus. Mateus, que vivia entre os judeus, escreveu um evangelho nessa língua, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam Roma e aí fundavam a Igreja. Depois da morte destes, Marcos, discípulo e intérprete de Pedro (cf 1Ped 5,13), transmitiu-nos por escrito a pregação de Pedro. Da mesma forma, Lucas, companheiro de Paulo, consignou em livro o evangelho por este pregado. Seguidamente João, discípulo do Senhor, o mesmo que apoiou a cabeça sobre o seu peito (cf Jo 13,25), publicou um evangelho durante a sua permanência em Éfeso.

No seu evangelho, Mateus regista a genealogia de Cristo como homem: «genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão» (Mt 1,1-18). Este evangelho apresenta Cristo na sua forma humana, permanentemente animado de sentimentos de humildade e mansidão. [...] O apóstolo Mateus reconhece um único Deus, o mesmo que prometeu a Abraão multiplicar a sua descendência como as estrelas do céu (cf Gn 15,5) e que, por seu Filho Cristo Jesus, nos chamou do culto das pedras ao seu conhecimento (cf Mt 3,9), de forma que [se cumprisse a Escritura que diz]: «Àquele que não é meu povo hei de chamar meu povo, e minha amada àquela que não é minha amada» (Os 2,25; Rom 9,25).

Irineu de Lyon (c. 130-c. 208). bispo, teólogo, mártir. Contra as heresias, III, 11,8; 9,1

terça-feira, 20 de setembro de 2022

«Quem é fiel nas coisas pequenas, também é fiel nas grandes»

Tens de saber de onde te vem a existência, o sopro de vida, a inteligência e aquilo que há de mais precioso, o conhecimento de Deus, de onde te vem a esperança do Reino dos Céus e de contemplares a glória que hoje vês de maneira obscura, como num espelho, mas que verás amanhã em toda a sua pureza e todo o seu brilho (cf 1Cor 13, 12). De onde te vem o facto de seres filho de Deus, herdeiro com Cristo (cf Rom 8, 16-17) e, se ouso dizê-lo assim, de seres tu próprio um filho de Deus? De onde te vem tudo isto e através de quem?

Ou ainda, falando de coisas menos importantes, as que se veem: quem te deu a beleza do céu, o curso do sol, o ciclo da lua, as incontáveis estrelas, com a harmonia e a ordem que as regem? [...] Quem te deu a chuva, a agricultura, os alimentos, as artes, as leis, a cidade, uma vida civilizada, relações familiares com os teus semelhantes?

Não foi Aquele que, antes de mais e em paga de todas as suas dádivas, te pede que ames os homens? [...] Se Ele, o nosso Deus e nosso Senhor, não Se envergonha de ser chamado nosso Pai, poderemos nós renegar os nossos irmãos? Não, meus irmãos e meus amigos, não sejamos administradores infiéis dos bens que nos são confiados.

São Gregório de Nazianzo (330-390). Bispo, doutor da Igreja. Homilia 14, sobre o amor dos pobres, §§ 23-25; PG 35,887

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

«Mas coloca-a num candelabro»

Não há pessoa mais insensata que um cristão que não se aplica a salvar os outros. Não podes argumentar com o pretexto da pobreza, pois a viúva que deu as duas moedinhas levantar-se-ia para te acusar (cf Lc 21,2); e Pedro, que dizia: «Não tenho ouro nem prata» (At 3,6), assim como Paulo, que era tão pobre que frequentemente passava fome e carecia de bens necessários (cf 1Cor 4,11). Também não podes objetar com a humildade das tuas origens: também eles eram de modesta condição. A ignorância não será melhor desculpa, pois também eles eram iletrados […]. Tão-pouco invoques a doença, já que Timóteo era dado a frequentes indisposições (cf 1Tim 5,23) […].

Não digas que não podes reconduzir os outros ao bom caminho, porque, se és cristão, é impossível que tal não aconteça. Cada árvore dá o seu fruto próprio (cf Mt 7,17s) e, como não há contradição na natureza, isto que dizemos é verdade, porque deriva da própria natureza do cristão. […] É mais fácil a luz ser trevas do que o cristão deixar de brilhar.

João Crisóstomo (c. 345-407). presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja. Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, n.º 20, 3-4; PG 60, 162

"Cala-te e está quieto"

 «Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: "Cala-te e está quieto"» Estás em alto mar e levanta-se uma tem...