quarta-feira, 24 de julho de 2024

Caíram em boa terra e deram fruto

«Saiu o semeador a semear». De onde saiu Ele, Aquele que está presente em toda a parte, que enche todo o Universo? Como saiu? Não materialmente, mas por uma disposição da sua providência a nosso respeito: aproximou-Se de nós, revestindo-Se da nossa carne. Uma vez que não podíamos ir até Ele, porque os nossos pecados no-lo impediam, foi Ele que veio até nós. E porque foi que saiu? Para destruir a terra onde abundavam os espinhos? Para castigar os cultivadores? De modo nenhum. Ele veio cultivar essa terra, tratar dela e nela semear a palavra da santidade. Porque a semente de que fala é, na verdade, a sua doutrina; o campo é a alma do homem; o semeador é Ele próprio. [...]

Com razão criticaríamos um semeador que semeasse com tanta abundância. [...] Mas, quando se trata das coisas da alma, as pedras podem transformar-se em terra fértil, o caminho pode deixar de ser pisado pelos transeuntes e tornar-se campo fecundo, os espinhos podem ser arrancados, permitindo que os grãos cresçam tranquilamente. Se isso não fosse possível, Ele não teria lançado a semente. E, se a transformação não se realizou, não é por culpa do semeador, mas daqueles que não quiseram deixar-se transformar. O semeador fez o seu trabalho. Se a semente se perdeu, o autor de tão grande benefício não é responsável por isso.     

Nota bem que há várias maneiras de deixar perder a semente. [...] Uma coisa é deixar a semente da palavra de Deus secar sem tribulações e sem cuidados, outra é vê-la sucumbir sob o choque das tentações. [...] Para que tal não nos aconteça, gravemos a palavra na nossa memória, com ardor e seriedade. Assim, por muito que o diabo arranque à nossa volta, teremos força para evitar que ele arranque o que quer que seja dentro de nós. 

João Crisóstomo (c. 345-407). 

Presbítero de Antioquia, Bispo de Constantinopla. Homilias sobre Mateus, 44

sexta-feira, 19 de julho de 2024

A nova Lei

Considerai, meus irmãos, o grande mistério da harmonia e da diferença entre as duas leis e os dois povos. O povo antigo não celebrava a Páscoa em plena luz, mas na «sombra do que estava para vir» (cf Col 2,17); cinquenta dias depois da celebração da Páscoa […], Deus deu-lhe a Lei escrita por sua mão, no Monte Sinai. […] Deus desceu ao Monte Sinai no meio do fogo, enchendo de pavor o povo, que se mantinha a distância, e escreveu a Lei com o seu dedo, sobre a pedra e não no coração (Ex 31,18). 

Pelo contrário, quando o Espírito Santo desceu à terra, os discípulos estavam todos juntos no mesmo lugar e, em vez de os assustar do alto da montanha, Ele «encheu toda a casa onde se encontravam» (At 2,1ss). Houve realmente, vindo do alto do céu, um barulho parecido com o de um vento violento que se aproximava, mas esse ruído não assustou ninguém.

Ouvistes o ruído, vede também o fogo; porque, na montanha, também se evidenciaram estes dois fenómenos: o ruído e fogo. No Monte Sinai, o fogo estava cercado de fumo; aqui, pelo contrário, é de uma claridade luminosa: diz a Escritura que era «uma espécie de línguas de fogo que se iam dividindo». Este fogo causou medo? Nem um pouco: «e pousou uma sobre cada um deles». […] 

Escutai esta língua que fala, e compreendei que é o Espírito que escreve, não sobre a pedra, mas no coração. Portanto, a lei do Espírito de vida, escrita no coração e não na pedra, esta lei do Espírito de vida que está em Jesus Cristo, em quem a Páscoa foi celebrada em toda a verdade (1Cor 5, 7), «libertou-te da lei do pecado e da morte» (Rom 8,2).

 Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), Sermão 155, 6

"Cala-te e está quieto"

 «Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: "Cala-te e está quieto"» Estás em alto mar e levanta-se uma tem...