quarta-feira, 22 de maio de 2024

Ser humilde ou fazer milagres? Aquilo que os discípulos devem reter do Mestre

Um dia, os apóstolos queixaram-se a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus atalhou imediatamente: «Não o proibais [...]. Quem não é contra nós é por nós». Mas quando, no final dos tempos, estas pessoas disserem: «Senhor, senhor, não foi em teu nome que profetizámos? Não foi em teu nome que expulsámos demónios? Não foi em teu nome que fizemos numerosas ações poderosas?», Ele afirma que lhes responderá: «Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade!» (Mt 7,22-23), advertindo aqueles que Ele mesmo agraciou com a glória de sinais e prodígios de que não se exaltem nesta matéria: «Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão inscritos nos Céus» (Lc 10, 20)

Agora, o próprio autor de todos os sinais e prodígios chama os seus discípulos para aprenderem a sua doutrina; Ele vai esclarecer o que os seus verdadeiros seguidores, os escolhidos, devem aprender com Ele em particular: «Vinde», diz, «e aprendei de Mim» - não a expulsar os demónios pelo poder do céu, evidentemente, nem a curar os leprosos, a iluminar os cegos, a ressuscitar os mortos. É verdade que faço todos estes prodígios por intermédio de alguns dos meus servos; no entanto, a condição humana não pode entrar em sociedade com Deus para os louvores que Lhe são devidos; o ministro e o escravo não podem tomar parte naquela glória que pertence apenas à divindade; mas «aprendei de Mim», diz Ele, isto: «que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,28-29). Isto é o que todos podem aprender e praticar. Mas fazer sinais e prodígios nem sempre é necessário, nem benéfico para todos, nem é universalmente concedido.

 João Cassiano (c. 360-435). Sobre os carismas divinos, cap. VI, SC 54

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Aproximemo-nos dele com toda a simplicidade!

A simplicidade é um hábito da alma que exclui todo o artifício e a torna imune à malícia. A ausência de malícia é um estado alegre da alma, liberta de segundas intenções. A primeira prerrogativa da infância é a simplicidade sem artifícios; enquanto a conservou, Adão não viu a nudez da sua alma nem a indecência da sua carne.

A simplicidade que algumas pessoas possuem por natureza é bela e abençoada, mas é-o menos do que a simplicidade que, à força de trabalho e suor, foi enxertada num tronco mau. A primeira está ao abrigo de muitos artifícios e paixões, mas a segunda traz consigo uma profunda humildade e uma doçura extrema. A primeira não merece qualquer recompensa; a segunda merece uma recompensa infinita.

Todos nós, que queremos atrair o Senhor, aproximemo-nos dele como discípulos do mestre, com toda a simplicidade, sem hipocrisia, sem malícia, sem artifícios nem complicações. Visto que Ele próprio é totalmente simples, quer que as almas que Se aproximam dele sejam simples e inocentes. Porque nunca encontrareis a simplicidade separada da humildade.

João Clímaco (c. 575-c. 650). A Escada Santa, 24º degrau.

domingo, 19 de maio de 2024

Vossa sou, para Vós nasci

Vossa sou, para Vós nasci,

Que quereis fazer de mim?

Soberana Majestade,

Eterna Sabedoria,

Bondade tão boa para a minha alma,

Vós, Deus, Alteza, Ser Único, Bondade,

Olhai para a minha baixeza,

Para mim que hoje Vos canto o meu amor.

Que quereis fazer de mim?

Vossa sou, pois me criastes,

Vossa, pois me resgatastes,

Vossa, pois me suportais,

Vossa, pois me chamastes,

Vossa, pois me esperais,

Vossa pois não estou perdida,

Que quereis fazer de mim?

Que quereis então, Senhor tão bom,

Que faça tão vil servidor?

Que missão destes a este escravo pecador?

Eis-me aqui, meu doce amor,

Meu doce amor, eis-me aqui.

Que quereis fazer de mim?

Eis o meu coração,

Que coloco em vossas mãos,

Com o meu corpo, minha vida, minha alma,

Minhas entranhas e todo o meu amor.

Doce Esposo, meu Redentor,

Para ser vossa me ofereci,

Que quereis fazer de mim?

Dai-me a morte, dai-me a vida,

A saúde ou a doença

Dai-me honra ou desonra,

A guerra, ou a maior paz,

A fraqueza ou a paz plena,

A tudo isso, digo sim:

Que quereis fazer de mim?

Vossa sou, para Vós nasci,

Que quereis fazer de mim?

Teresa de Ávila (1515-1582). Poesia «Vossa sou, para Vós nasci»

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Darei a minha vida por Ti (Jo 13,37)

Depois de ter falado a Pedro sobre o amor [que ele devia ter], Jesus predisse-lhe o martírio que lhe estava destinado, mostrando-lhe assim a confiança que tinha nele.

Para nos dar um exemplo de amor e nos ensinar a melhor maneira de O amar, disse-lhe: «Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas quando fores mais velho, estenderás a mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres». Era aliás o que Pedro queria e desejava; foi por isso que Jesus lhe falou assim. Pedro tinha-Lhe dito: «Darei a minha vida por Ti» (Jo 13,37) e: «Mesmo que tenha de morrer contigo, não Te negarei» (Mt 26,35). Jesus acede, pois, aos seus desejos. Não lhe diz estas coisas para o assustar, mas para reavivar o seu ardor, pois conhece o seu amor e a sua impetuosidade; pode dizer-lhe, pois, que tipo de morte o espera. A Pedro, que sempre quis enfrentar perigos por Cristo, diz Jesus: «Tem confiança, o teu desejo realizar-se-á; o que não suportaste na juventude, suportá-lo-ás na velhice».

E, para chamar a atenção do leitor, o evangelista acrescenta: «Disse isto para indicar o género de morte com que Pedro havia de dar glória a Deus». Com estas palavras, aprenderás que sofrer por Cristo é uma glória e uma honra.

João Crisóstomo (c. 345-407). presbítero de Antioquia, Bispo de Constantinopla. Homilia 88 sobre o Evangelho de São João; PG 59,477-480

domingo, 12 de maio de 2024

Se O imitares, serás semelhante a Ele

Quando conheceres a Deus como Ele é, terás um corpo imortal e incorruptível como é a tua alma, e possuirás o Reino dos Céus. Tendo reconhecido o Rei durante a tua vida terrena, serás familiar de Deus e herdeiro com Cristo, e já não serás escravo das concupiscências, das paixões e das doenças, porque te terás tornado semelhante a Ele.

Os sofrimentos que suportaste como homem, deu-tos Deus porque és homem; mas promete conceder-te tudo o que pertence a Deus quando fores divinizado e te tornares imortal. «Conhece-te a ti mesmo», reconhecendo Deus que te criou. É conveniente que aqueles a quem Deus chama O reconheçam e sejam reconhecidos por Ele [...].

Cristo «está acima de todas as coisas» (Rm 9,5), e ordenou que os pecados dos homens fossem apagados, para fazer de novo o homem velho, ao qual chamou sua imagem desde o princípio, e mostrar-nos assim a sua ternura. Se obedeceres aos seus mandamentos e imitares aquele que é bom com a tua bondade, serás semelhantes a Ele e Ele honrar-te-á; pois Deus não é indigente e far-te-á semelhante a Ele, para sua glória.

 Hipólito de Roma (?-c. 235) presbítero, mártir, Refutação de todas as heresias, livro 10, 33-34; PG 16/3, 3452-3453.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

O temor do amor

Fundados na perfeição da caridade, elevar-nos-emos a um grau ainda mais excelente e sublime, que é o temor de amor. Este não nasce do medo do castigo ou do desejo de recompensa, mas da própria grandeza do amor. É a mistura de respeito e afeição atenciosa que um filho tem por um pai indulgente, um irmão por seu irmão, um amigo por seu amigo, uma esposa por seu marido. Não teme golpes nem censuras; o que teme é ferir o amor com a mais pequena injúria [...].

Assim, há uma distância considerável entre o temor ao qual nada falta, tesouro da sabedoria e da ciência, e o temor imperfeito. Este último é apenas «o princípio da sabedoria» (Sl 110,10) e, pois implica um castigo, é expulso do coração dos perfeitos quando chega a plenitude da caridade; porque «no amor não há temor, pois o amor perfeito expulsa o temor» (1Jo 4,18). De facto, se o princípio da sabedoria é o temor, onde estará a sua perfeição, senão na caridade de Cristo, que inclui em si o temor de amor perfeito, e por isso merece ser chamada, já não o princípio, mas o tesouro da sabedoria e da ciência? [...]

Este é o temor do perfeito de que se diz estar cheio o Homem-Deus, que não vaio só para nos redimir, mas para nos dar, na sua Pessoa, o tipo da perfeição e o exemplo das virtudes.

João Cassiano (c. 360-435), «Sobre a perfeição», cap. XIII; SC 54


A Igreja assolada pelas perseguições

«E eis que um mentiroso se levanta diante de mim e fala contra mim» (Jb 16,8 Vg). Até nas suas horas de tranquilidade a Santa Igreja é assolada pela mentira, pois há no seu seio muitos espíritos que, já não sendo fiéis à promessa da eternidade, mentem, dizendo-se fiéis. E, como eles não têm coragem para contradizer abertamente a sua pregação, ela suporta a mentira, não cara a cara, mas, por assim dizer, pelas costas. Quando, porém, soa a hora do maligno, aquele que agora calunia com medo vem contradizê-la na cara e as palavras da verdadeira fé são bloqueadas pelo seu clamor.

Mas temos de estar conscientes de que, quando nos confrontamos com os golpes dos homens carnais, não são tanto eles que pretendem a nossa morte, mas o espírito maligno, o príncipe das suas almas, como diz São Paulo: «Temos de lutar corpo a corpo, não contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas» (Ef 6,12). É por isso que, falando mais uma vez da mentira, Job faz o retrato do príncipe desta mentira, transformando assim a sua frase: «Concentrou em mim a sua cólera e, ameaçando-me, rangia os dentes contra mim. O meu inimigo olhava-me com olhos terríveis» (Job 16,10). O que são todos os injustos, senão membros do demónio? É ele que faz, através deles, o que lhes inspira no coração.

Ora, se para já ele apenas tem furor contra a Santa Igreja, o seu furor está disperso, porque é nos indivíduos que suscita tentações secretas contra ela. No dia, porém, em que se lançar contra ela em perseguição aberta, concentrará a sua fúria, porque reunirá todos os esforços da sua vontade para a derrubar.

 Gregório Magno (c. 540-604) - Livro VIII, SC 212

"Cala-te e está quieto"

 «Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: "Cala-te e está quieto"» Estás em alto mar e levanta-se uma tem...