quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O primeiro discípulo do Senhor


André foi o primeiro apóstolo a reconhecer o Senhor como seu mestre [...]; ele deixou a companhia de João Batista para aderir a Cristo. [...] Iluminado pela lamparina (cf Jo 5,35), procurava a luz verdadeira; sob o seu brilho incerto, acostumou-se ao esplendor de Cristo. [...] De mestre que era, João Batista tornou-se servo e arauto de Cristo: «Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29), eis Aquele que livra da morte, eis Aquele que destrói o pecado. Eu não fui enviado como esposo, mas como aquele que acompanha o esposo (cf Jo 3,29). Eu vim como servo e não como senhor.

Tocado por estas palavras, André deixa o seu antigo mestre e adere a quem ele anunciava. [...] Adere ao Senhor, o seu desejo é evidente no seu empenho [...], e leva consigo o evangelista João; os dois deixam a lamparina para avançarem em direção ao Sol. André é a primeira planta do jardim dos apóstolos, é ele que abre a porta aos ensinamentos de Cristo, é ele o primeiro a colher os frutos do campo cultivado pelos profetas. [...] Ele foi o primeiro a reconhecer Aquele de quem Moisés disse: «O Senhor teu Deus suscitará em teu favor um profeta saído das tuas fileiras, um dos teus irmãos, como eu: é a ele que escutarás» (Dt 18,15). 

André reconheceu Aquele que os profetas anunciaram, e chamou seu irmão Pedro, mostrando-lhe um tesouro que ele ainda não conhecia: «Encontrámos o Messias» (Jo 1,41), Aquele que desejávamos. Nós esperávamos a sua vinda, vem desfrutar da sua presença. [...] André levou seu irmão a Cristo [...]; foi o seu primeiro milagre. Seu martírio foi entre os Citas na Romênia, sendo crucificado em forma de X.

Basílio de Selêucia (?-c. 468)


domingo, 20 de novembro de 2022

Por cima dele havia um letreiro: "Este é o rei dos judeus"


"Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com o teu Reino". O ladrão não ousou fazer esta prece sem antes, pela confissão, se ter libertado do fardo dos seus pecados. Vê bem, cristão, a força da confissão: ele confessou os seus pecados e o paraíso abriu-se; confessou os seus pecados e ganhou confiança bastante para pedir o Reino dos Céus, depois dos roubos que tinha cometido. 

Queres conhecer o Reino? Que vês aqui que se lhe assemelhe? Tens diante dos olhos os pregos e uma cruz, mas essa cruz, dizia Jesus, é o próprio sinal do Reino. E eu, ao vê-lo na cruz, proclamo-O Rei. Não é próprio de um rei morrer pelos seus súbditos? Ele próprio o disse: «O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas» (Jo 10.11). Isto é igualmente verdade para um bom rei: também ele dá a vida pelos seus súbditos. Proclamá-lo-ei portanto Rei por causa da dádiva que fez da sua vida: "Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com o teu Reino". Compreendes agora que a cruz é o sinal do Reino?

Aqui tens outra prova: Cristo não deixou a sua cruz na Terra, ergueu-a e levou-a consigo para o Céu; sabemo-lo porque a terá junto de Si quando voltar pleno de glória. Para perceberes quanto esta cruz é digna de reverência, repara como Ele a tomou como título de glória. Quando o Filho do homem vier, "o sol escurecerá e a lua perderá o brilho"; reinará então uma claridade tão viva que os astros mais brilhantes se eclipsarão e "as estrelas cairão do céu. Aparecerá então no céu o sinal do Filho do homem" (Mt 24.29s). Vês a força do sinal da cruz? Quando um rei entra numa cidade, os soldados pegam nos estandartes, içam-nos aos ombros e marcham à sua frente para anunciar a chegada do monarca. De igual modo, legiões de anjos precederão a Cristo, quando Ele descer do Céu, trazendo aos ombros esse sinal anunciador da vinda do nosso Rei.

João Crisóstomo (c. 345-407). Presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja. Homilia sobre a cruz e o bom ladrão, 1, 3-4


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Tereis ocasião de dar testemunho


"Dou sem cessar graças ao meu Deus, que me guardou fiel no dia da minha tentação, de modo que hoje possa oferecer confiadamente a minha alma em oblação como "sacrifício vivo" (Rom 12.1) a Cristo meu Senhor, que me protegeu de todas as angústias. Por isso digo: quem sou eu, Senhor? Donde me vem esta sabedoria (Mt 13.54), que não era minha, eu que nem o número dos meus dias conhecia e que ignorava a Deus? De onde me veio depois o tão grande e salutar dom de conhecer a Deus e de O amar, a ponto de deixar pátria e família, e de vir para junto dos pagãos da Irlanda pregar o Evangelho, para sofrer insultos por parte dos incrédulos, suportar muitas perseguições, "e até prisões" (2Tim 2.9), de forma a dar a minha liberdade pelo bem de outros?

Se for digno disso, estou pronto para dar a minha própria vida sem hesitação; escolho consagrar a minha vida até à morte, se o Senhor mo permitir. Porque sou grandemente devedor de Deus, que me atribuiu esta grande graça de fazer, por meu intermédio, renascer em Deus numerosos povos, conduzindo-os depois à plenitude da fé. Permitiu-me também consagrar por toda parte ministros para este povo recentemente chegado à fé, este povo que o Senhor adquiriu nos confins da Terra, como tinha sido prometido pelos seus profetas (Lc 1.70): "a ti virão os povos dos confins da Terra" (Is 49.6) e "estabeleci-te como luz das nações, para levares a salvação até aos confins da Terra" (At 13.47).

Patrício (385-461) - Século V - Primeiro missionário aos irlandeses (Confissão, pp34-38). Fundador do cristianismo celta.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O Reino de Deus está no meio de vós

 «O Reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17,21), diz o Senhor. Volta-te com todo o teu coração para o Senhor e deixa este mundo miserável; e a tua alma achará repouso. Aprende a desprezar as coisas exteriores e a entregar-te às interiores, e verás chegar para ti o Reino de Deus. Na verdade, «o Reino de Deus é a paz e a alegria do Espírito Santo» (Rom 14,17), que não é dado aos ímpios. Cristo virá junto de ti, mostrando-te a sua consolação, se Lhe tiveres preparado interiormente uma morada digna. Toda a sua glória e beleza são de dentro, e é aí que Ele Se compraz. Ele visita frequentemente o homem recolhido, e a sua conversa é doce, a sua consolação agradável, a sua paz imensa, o seu convívio admirável.

Vai, alma fiel, prepara o teu coração para este Esposo, para que Se digne vir a ti e em ti habitar. Na verdade, Ele diz assim: «Se alguém Me ama, ouvirá a minha palavra; e viremos a ele e nele faremos morada» (Jo 14,23).

Imitação de Cristo, Tomas à Kempis. Tratado espiritual do século XV  - II Parte, cap. 1, 1-2


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

O serviço humilde

"Antes da vinda do Senhor Jesus, os homens gloriavam-se de si próprios. Ele veio como homem para que a glória do homem diminuísse e a glória de Deus aumentasse. Porque Ele veio sem pecado e encontrou-nos a todos pecadores; Ele veio para perdoar os pecados, porque Deus é misericordioso: compete ao homem reconhecê-lo. A humildade do homem está nesse reconhecimento, e a grandeza de Deus na sua misericórdia.

Se Ele veio perdoar os pecados ao homem, este deve tomar consciência da sua pequenez e de que Deus é misericordioso. «Ele deve crescer e eu diminuir» (Jo 3,30). Ou seja: é necessário que Ele dê e eu receba; que Ele tenha a glória e eu a reconheça. O homem tem de compreender qual é o seu lugar, reconhecer a Deus e ouvir o que o apóstolo Paulo diz aos soberbos e orgulhosos que pretendem superiorizar-se: «Que tens tu que não hajas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias como se não o tivesses recebido?» (1 Cor 4,7). O homem que queria chamar seu ao que não era dele deve compreender que o recebeu e fazer-se pequeno, porque é bom para ele que Deus seja glorificado nele. Que o homem se diminua, pois, em si mesmo, para que Deus cresça nele.

Santo Agostinho (354-430). bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja. Sermões sobre o Evangelho de João, 14,5; CCL 36, 143-144

"Cala-te e está quieto"

 «Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: "Cala-te e está quieto"» Estás em alto mar e levanta-se uma tem...