«Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos ou terras por causa do meu nome receberá cem vezes mais» (Mt 19,29)
«Pensais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três». O sentido espiritual tem um papel importante em quase todas as passagens do Evangelho, mas tem-no sobretudo nesta passagem, que não deve ser rejeitada pela dureza de uma interpretação simplista; temos de procurar a profundidade espiritual que se oculta nas palavras. [...] Como é que Ele próprio disse: «Dou-vos a minha paz, deixo-vos a minha paz» (Jo 14,27), se veio separar os pais dos filhos e os filhos dos pais, rompendo os laços que os unem? Como se pode chamar «maldito o que trata com desprezo seu pai ou sua mãe» (Dt 27,16), e fervoroso o que os abandona?
Se compreendermos que a religião vem em primeiro lugar e a piedade filial em segundo, esta questão fica esclarecida; com efeito, o humano tem de vir depois do divino. Porque, se temos deveres com os pais, quanto mais os temos com o Pai dos pais, a quem devemos estar reconhecidos pelos nossos pais! [...] Ele não diz, portanto, que temos de renunciar aos que amamos, mas que temos de preferir Deus a todos. Aliás, lemos noutra passagem: «Quem amar o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim» (Mt 10,37). Não estás proibido de amar os teus pais, mas de os preferir a Deus. Porque as relações naturais são benefícios do Senhor, e ninguém deve amar os benefícios recebidos mais do que ama a Deus, que preserva os benefícios que dá.
Ambrósio (c. 340-397). Bispo e mestre da Igreja. Comentário ao evangelho de Lucas 7, p.134
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